Quem cuida de quem cuida….

1h da manhã. Domingo deste ano que corre. Alguns meses atrás. Depois de uma noite de cerveja e conversa, num toque, tudo muda. Muda para minha mãe Licia, muda para meu então marido Marcelo, muda para meu pai Gian, muda para minha irmã Mirella, muda para meus amigos, muda para meu primo Vinicius, muda para meu avô Fernando. A vida como era então, vira outra. Num toque de celular.

Hospital das Clínicas. A mudança se configura no Pronto-Socorro. Eu, num canto aleatório do PS sou questionada sobre o tombo que minha mãe havia tido há algumas horas. É… o tombo não era um tombo. Era sim um tumor na cabeça. Era câncer. Frio, quente, eu tremo. E respondo. E escuto. E respondo. E minha mãe deitada. E aquele bando de gente circulando. E eu em pé. Permanecendo assim. Olhando pra mudança que batia na minha cara.

O tumor tomando parte dela. E ela deitada. E eu andando pra ela, sabendo de tudo e fingindo o nada. Corro para o orelhão. O celular que mudara minha vida há um tempo já era. E ligo para o Marcelo que então cuidava do meu avô. Ele gela: “Gabi, caralho. Calma”. São 5h. E acordo meu pai no sítio. Ele, já separado há 35 anos da minha mãe: “Filha, fique firme”. São 6h. Ligo para meu primo Vinicius: “Caramba, Gabi. Quer que eu vá praí?”…Ligo para a Gabi Mac, minha irmã de vida: “Gabi, meu, não tô acreditando”. Ligo para o Dani e para a Majô: “Gabi, meu, como podemos te ajudar”…Ligo para o Ale, meu amigo da vida toda….Já não sei que horas são.

E fiquei sem saber as horas durante horas. E nessa ausência, toca internar, toca planejar a operação. E toca mudar tudo como era antes. É uma loucura, sabe….não há espaço para cair. Não há espaço para chorar. Não há espaço para porra nenhuma, é essa a verdade. E nessa ausência de espaços, Marcelo aparece no PS. Eu corri. E me abracei nele como um retorno do tempo, das horas, da vida lá fora. E com ele veio minha escova de dente. Veio tudo o que eu não imaginava precisar. Veio ali tudo o que eu precisava.

Ao perceber a vida la fora, percebi que nada era mais. Era tudo novo. Operação. Minha mãe não acorda. Eu na casa dela cuidando do avô. E trabalhando como nunca. E cuidando das cachorras dela. E ligada no hospital. E achando que ela já era. Minha mãe não acordando. Ela, como era, não é mais. Eu como era, não sou mais. Ela se recupera. Ela volta pra casa. Eu vou para uma nova casa. A gente, como era, não é mais.

E quem cuida de quem cuida? Pois é, meus caros, quem cuida de quem cuida? Doente todos ficamos um pouco. Em diferentes graus, mas ficamos. A vida de todos conectados muda. É lugar-comum mesmo…E viva o lugar-comum! Porque no fundo é isso o que acontece. É o lugar mais comum do mundo. Mas, a gente não acha lugar. Tem que procurar. E, cuidando de alguém (s) tem que procurar mesmo. É preciso o cuidado para manter o limite, para não sufocar, para não errar a mão. Tem a dor do outro, a possibilidade de não estar mais. É a sua dor, o seu cansaço ao lado da dor de quem está doendo. A vida passa a exigir um grau de sobriedade desumano. E a gente fica sóbrio. Ô, se fica.

Mas, os outros aparecem. E aparecem de lugares sensacionais. E trazem de volta um pouco de embriaguez. Aquela necessária para dar cor, para deixar o ar entrar, para fazer a cabeça escapar, se perder um pouco. E eles cuidam. Cada um dando o que tem. Dando sua casa para você passar uma temporada, dando um café da manhã e uma rede para você descansar, dando uma ligação de longe, dando um abraço de baobá, dando a emoção de uma visita na casa da mãe quando você está sozinha, dando a presença quando sua mãe está saindo da operação, dando um almoço, uma cerveja, um afago, dando a escova de dente quando você não tem nada.

Meus amigos, minha família, com vocês eu me perco. E me perco tranquila. Obrigada.

Sobre Eu não vim, eu não vou!

Eu sou a Gabriella Contoli. Estou aqui. Vou ali! Entre os pontos, tanta coisa....
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2 respostas para Quem cuida de quem cuida….

  1. Pietra Luña disse:

    Texto lindo, real e dificil. Minha mae tem alzeheimer, porem diferentemente de vc nao tenho quem cuide de mim em termos familiares. mas to sobrevivendo.

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