Numa manhã daquelas, na qual o controle abandonou meu corpo, aconteceu: vou comprar uma bicicleta.
Assim, sem ponderar, sem a menor ideia do modelo, sem saber qual a melhor marca, sem a devida noção de que o selim (que até então no meu dicionário se chamava banco) faz toda diferença no dia a dia de um ciclista, eu, aos 35 anos, deliberadamente, tomo uma decisão desta natureza.
Pego o carro, desço para a Av. Pedroso de Moraes e pá! Loja de bicicleta cuja reputação sabe lá. Podia bem ser faixada para venda ilegal de vai saber, gente.
“Oi, quero comprar uma bicicleta”. “Claro, pra que você quer? Vai andar na cidade, vai fazer trilha?”. “Ah, olha, eu não sei, mas acho que vou andar na cidade mesmo. Acho”. “Tem um modelo para mulheres que é ótimo”. “Posso ver?” “É esse aqui ó”.
Era uma gracinha, mas, diante do meu conhecimento histórico, achei prudente ligar para um ciclista com poder de decisão para decidir por mim!
“Oi Sil, bom dia, então, estou comprando uma bicicleta”. “Oi Gabi, que legal! E ai?” “Então, queria saber o que você acha. Ela é assim: banco, rodas, é cinza e não tem aquele cano no meio. É para mulheres. Dá pra andar de saia. Ah, e tem 21 marchas”. “Ah, Gabi, não sei. Assim, de repente, sem ver, fica difícil”. “Ah, mas parece boa, Sil. E tá num preço que deve ser bom. E eu quero muito, e não tenho noção do que estou fazendo, e estou comprando no impulso. Então, vou levar. Depois te conto”. Beijo, beijo e passei o cartão. Pega a bike, enfia no carro e bora para a residência entocar a bicicleta na garagem.
Corta. Um ano depois.
Hospital. Dor. Dooooor. Casa. Dor. Hospital de novo. Marido varando o aniversário no PS. Dooooor. “Olha, parece que vocês está tendo uma crise de Diverticulite”. “Hein?” “É, parece que é isso. Tem que tomar contraste pra fazer o negócio de tomografia”. Madrugada. Cinco da manhã. 500 litros de contraste. “É, você tem alguns divertículos mesmo. Antibiótico e repouso”. Semana com dor.
Corta. Um mês depois. 5 kg perdidos por conta dos divertículos, que são uma espécie de bolsinhas no intestino, pra quem se interessa no assunto. Bicicleta na garagem. Poeira. Pimba! É a hora.
Toca pegar a bicicleta para passeios eventuais. E os passeios eventuais viraram conversas no Facebook com outros amigos sobre a delícia destes passeios. E as conversas estímulos para novos passeios. E a bicicleta virou possibilidade de transporte para o trabalho, deixando de lado o ônibus que tanto me agoniava (vai pegar o Armênia às 8h e pouco pra ver o sacolejo).
O corpo reage, sabe. A perna fica melhor. Aparecem até uns calombos que no mundo atual também são conhecidos como músculos. E a respiração fica outra. E vem junto o lugar-comum, gritando que a cidade fica diferente. Não sei se fica, mas que parece outra, parece. A vida muda um pouco. Muda porque as mudanças no corpo apontam possibilidades para mudanças de outras naturezas. Místico, né? É místico pra caceta. É ananaira. É bom pra caramba!
Passados estes meses, ainda não mudei de faixa. Continuo na categoria mirim, faixa branca. Ando pela calçada tartarugando. Dr. Arnaldo no meio dos carros, jesus, maria, josé, nem por um cacete. Que me importa. No mais, ando indo, ando indo, ando indo. E tá bom pra caramba!
Outras fotos de outras coisas: aleatorias.tumblr.com

Gabi, lindo texto, curti. Bjs
A revolução pode acontecer sobre duas rodas. Eu estou muito esperançosa de ver o movimento crescer cada dia mais. bjs bjs
Eu também espero! Muito mesmo! beijinhos
Delicioso, Gabi.
Descompromissado e comprometido. É possível?
Queridão! Valeu!! beijos, beijos!
Gabiii!
Adorei o post e AMEI essa foto!
Não sabia q vc era uma “estreante” nas pedaladas!
Mto bom! Quero passear com vc algum dia desses!
Divirta-se! Seus “calombos”, seus hormônios, seu humor (e até mesmo seu intestino) certamente agradecem.
Beijocas!
Sim, Dani! Precisamos marcar um passeio. Aliás, a gente podia juntar o pessoal da Webees que anda de bike, hein?
muito bom, gabi, o post e a iniciativa ! bjo !
Quem bom que você gostou, Mindi!!! beijos
Delicia de blog rodante!!!
Deu ate vontade de comprar um camelinho…
Oi Gabi!
Pô cara! Isso foi muito inspirador. Vamos trombar por aih de bike?
Du! Demorô. Bora combinar! beijos