Melancolia, o planeta somos nós

Tem dias que a gente se sente. E aí, resolve ir ao cinema. Pra sentir menos. Ah....que graça. Que bobagem. Poderia ter passado sem essa. Ou melhor, poderia ter passado com essa, mas melhor. Mas, não passei.

Eu não sei quem viu o que eu vi. Eu não sei quem percebeu o que eu percebi. Mas, o alento que eu buscava naquele momento, foi devolvido com uma sutileza cruel. Toma, filha. Lide com isso. E veio com uma beleza.... Em plumas, em som, em imagens, em vagar. E no vagar dos gestos, tudo ficou mais sentido. Mais firme, mais intenso. E o alento que eu buscava se distanciava de mim. E tudo, lento. Muito lento. Tão lento que eu achei nem perceber o caminho que eu tomava ali, sentada, quieta. Mas, de repente, o que eu passei a buscar não era mais a calma que me levou ali. Eu queria chorar. Eu queria tirar de mim o conforto que eu procurava. Queria cair num campo de golfe, me aterrar. Queria a lentidão de um cavalo que curva as pernas. Queria ser a noiva deitada no rio. Eu queria ver a beleza no desterro. Tudo o que eu buscava se foi. Sai triste. Sai com a minha condição. Tudo continuava igual. A ansiedade era a mesma. A falta, estava lá. O cansaço gritante como antes. Nada mudou. O alento não veio. A calma, menos ainda. Sai sentida. Mas, a beleza....ah, que beleza.

É.....Melancolia somos nós.

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Quem cuida de quem cuida….

1h da manhã. Domingo deste ano que corre. Alguns meses atrás. Depois de uma noite de cerveja e conversa, num toque, tudo muda. Muda para minha mãe Licia, muda para meu então marido Marcelo, muda para meu pai Gian, muda para minha irmã Mirella, muda para meus amigos, muda para meu primo Vinicius, muda para meu avô Fernando. A vida como era então, vira outra. Num toque de celular.

Hospital das Clínicas. A mudança se configura no Pronto-Socorro. Eu, num canto aleatório do PS sou questionada sobre o tombo que minha mãe havia tido há algumas horas. É… o tombo não era um tombo. Era sim um tumor na cabeça. Era câncer. Frio, quente, eu tremo. E respondo. E escuto. E respondo. E minha mãe deitada. E aquele bando de gente circulando. E eu em pé. Permanecendo assim. Olhando pra mudança que batia na minha cara.

O tumor tomando parte dela. E ela deitada. E eu andando pra ela, sabendo de tudo e fingindo o nada. Corro para o orelhão. O celular que mudara minha vida há um tempo já era. E ligo para o Marcelo que então cuidava do meu avô. Ele gela: “Gabi, caralho. Calma”. São 5h. E acordo meu pai no sítio. Ele, já separado há 35 anos da minha mãe: “Filha, fique firme”. São 6h. Ligo para meu primo Vinicius: “Caramba, Gabi. Quer que eu vá praí?”…Ligo para a Gabi Mac, minha irmã de vida: “Gabi, meu, não tô acreditando”. Ligo para o Dani e para a Majô: “Gabi, meu, como podemos te ajudar”…Ligo para o Ale, meu amigo da vida toda….Já não sei que horas são.

E fiquei sem saber as horas durante horas. E nessa ausência, toca internar, toca planejar a operação. E toca mudar tudo como era antes. É uma loucura, sabe….não há espaço para cair. Não há espaço para chorar. Não há espaço para porra nenhuma, é essa a verdade. E nessa ausência de espaços, Marcelo aparece no PS. Eu corri. E me abracei nele como um retorno do tempo, das horas, da vida lá fora. E com ele veio minha escova de dente. Veio tudo o que eu não imaginava precisar. Veio ali tudo o que eu precisava.

Ao perceber a vida la fora, percebi que nada era mais. Era tudo novo. Operação. Minha mãe não acorda. Eu na casa dela cuidando do avô. E trabalhando como nunca. E cuidando das cachorras dela. E ligada no hospital. E achando que ela já era. Minha mãe não acordando. Ela, como era, não é mais. Eu como era, não sou mais. Ela se recupera. Ela volta pra casa. Eu vou para uma nova casa. A gente, como era, não é mais.

E quem cuida de quem cuida? Pois é, meus caros, quem cuida de quem cuida? Doente todos ficamos um pouco. Em diferentes graus, mas ficamos. A vida de todos conectados muda. É lugar-comum mesmo…E viva o lugar-comum! Porque no fundo é isso o que acontece. É o lugar mais comum do mundo. Mas, a gente não acha lugar. Tem que procurar. E, cuidando de alguém (s) tem que procurar mesmo. É preciso o cuidado para manter o limite, para não sufocar, para não errar a mão. Tem a dor do outro, a possibilidade de não estar mais. É a sua dor, o seu cansaço ao lado da dor de quem está doendo. A vida passa a exigir um grau de sobriedade desumano. E a gente fica sóbrio. Ô, se fica.

Mas, os outros aparecem. E aparecem de lugares sensacionais. E trazem de volta um pouco de embriaguez. Aquela necessária para dar cor, para deixar o ar entrar, para fazer a cabeça escapar, se perder um pouco. E eles cuidam. Cada um dando o que tem. Dando sua casa para você passar uma temporada, dando um café da manhã e uma rede para você descansar, dando uma ligação de longe, dando um abraço de baobá, dando a emoção de uma visita na casa da mãe quando você está sozinha, dando a presença quando sua mãe está saindo da operação, dando um almoço, uma cerveja, um afago, dando a escova de dente quando você não tem nada.

Meus amigos, minha família, com vocês eu me perco. E me perco tranquila. Obrigada.

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Sobre as rodas que nos levam

Na USP, dia desses. Foto: gabriella contoli

 

Numa manhã daquelas, na qual o controle abandonou meu corpo, aconteceu: vou comprar uma bicicleta.

Assim, sem ponderar, sem a menor ideia do modelo, sem saber qual a melhor marca, sem a devida noção de que o selim (que até então no meu dicionário se chamava banco) faz toda diferença no dia a dia de um ciclista, eu, aos 35 anos, deliberadamente, tomo uma decisão desta natureza.

Pego o carro, desço para a Av. Pedroso de Moraes e pá! Loja de bicicleta cuja reputação sabe lá. Podia bem ser faixada para venda ilegal de vai saber, gente.

“Oi, quero comprar uma bicicleta”. “Claro, pra que você quer? Vai andar na cidade, vai fazer trilha?”. “Ah, olha, eu não sei, mas acho que vou andar na cidade mesmo. Acho”. “Tem um modelo para mulheres que é ótimo”. “Posso ver?” “É esse aqui ó”.

Era uma gracinha, mas, diante do meu conhecimento histórico, achei prudente ligar para um ciclista com poder de decisão para decidir por mim!

“Oi Sil, bom dia, então, estou comprando uma bicicleta”. “Oi Gabi, que legal! E ai?” “Então, queria saber o que você acha. Ela é assim: banco, rodas, é cinza e não tem aquele cano no meio. É para mulheres. Dá pra andar de saia. Ah, e tem 21 marchas”. “Ah, Gabi, não sei. Assim, de repente, sem ver, fica difícil”. “Ah, mas parece boa, Sil. E tá num preço que deve ser bom. E eu quero muito, e não tenho noção do que estou fazendo, e estou comprando no impulso. Então, vou levar. Depois te conto”. Beijo, beijo e passei o cartão. Pega a bike, enfia no carro e bora para a residência entocar a bicicleta na garagem.

Corta. Um ano depois.

Hospital. Dor. Dooooor. Casa. Dor. Hospital de novo. Marido varando o aniversário no PS. Dooooor. “Olha, parece que vocês está tendo uma crise de Diverticulite”. “Hein?” “É, parece que é isso. Tem que tomar contraste pra fazer o negócio de tomografia”. Madrugada. Cinco da manhã. 500 litros de contraste. “É, você tem alguns divertículos mesmo. Antibiótico e repouso”. Semana com dor.

Corta. Um mês depois. 5 kg perdidos por conta dos divertículos, que são uma espécie de bolsinhas no intestino, pra quem se interessa no assunto. Bicicleta na garagem. Poeira. Pimba! É a hora.

Toca pegar a bicicleta para passeios eventuais. E os passeios eventuais viraram conversas no Facebook com outros amigos sobre a delícia destes passeios. E as conversas estímulos para novos passeios. E a bicicleta virou possibilidade de transporte para o trabalho, deixando de lado o ônibus que tanto me agoniava (vai pegar o Armênia às 8h e pouco pra ver o sacolejo).

O corpo reage, sabe. A perna fica melhor. Aparecem até uns calombos que no mundo atual também são conhecidos como músculos. E a respiração fica outra. E vem junto o lugar-comum, gritando que a cidade fica diferente. Não sei se fica, mas que parece outra, parece. A vida muda um pouco. Muda porque as mudanças no corpo apontam possibilidades para mudanças de outras naturezas. Místico, né? É místico pra caceta. É ananaira. É bom pra caramba!

Passados estes meses, ainda não mudei de faixa. Continuo na categoria mirim, faixa branca. Ando pela calçada tartarugando. Dr. Arnaldo no meio dos carros, jesus, maria, josé, nem por um cacete. Que me importa. No mais, ando indo, ando indo, ando indo. E tá bom pra caramba!

 

Outras fotos de outras coisas: aleatorias.tumblr.com

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Os 00 antes do 7

Acho, foi neste final de semana, no TCM, que uma dupla de filmes 007 me fez lembrar como são incríveis as sequências de abertura da série. Tirando o fato dos filmes me tomarem, tirando o fato do Sean Connery ser o definitivo Bond (ele não é o definitivo Bond, desculpe. Ele é definitivo!), as músicas e imagens que dão o clima para cada episódio são deliciosas!

Adoraria poder escrever sobre algumas referências que aparecem nestes quadros – certamente elas estão por ali. No entanto, falta estofo! E por falta de energia para tanto, recorro às imagens, e às música, e deixo por aí mesmo. Afinal de contas, é James Bond. Que ele resolva, por agora, questões que eu não dou conta de resolver!

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Ai, sei lá, tô mística…

céu de Lisboa com leão. Foto: Gabriella Contoli, 2009

 

Deve ser o inferno astral from hell – se é que é possível duplicar o fogo da coisa. Ou deve ser O Jogo das contas de vidro, do Hess – que eu não tenho lido na chave dos 60, mas vai saber se o clima Sidarta não me pegou! Seja lá o que for, confesso, tô meio mística.

Na verdade, não estou absolutamente mística, mesmo porque acho um pé no saco essa coisa telúrica transloucada, duende, cristais e tais. No entanto, tenho percebido a energia de certas coisas circulando de uma forma diferente (ui!).

Para ser mais precisa: tenho me apegado à máxima “não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje”. É, isso aí. E tenho me apegado com fé! Estou devota do Santo Fazedor do Hoje. E sabe que tem funcionado?

E tem funcionado por um motivo simples (claro, eu tenho fé e por isso a coisa flui…): fazendo hoje o que é de Hoje, automaticamente eu libero o amanhã para o que é do Amanhã (o.0). Não fico atrapalhando o pobre coitado – que nem sabe o que será dele – com coisas que não são de sua alçada. Deixo espaço; deixo ar.

Bom, o efeito colateral desta maravilha é uma ansiedade duplicada. Uma vez que preciso livrar o Amanhã, o Hoje fica sobrecarregado: e tome cartório….e tome procurar casa pra mãe…e tome o trabalho…..e tome cerveja no fim do dia para acalmar. Mas….acho que é parte do processo (frase mística, clássica e analisada). Talvez com o tempo, o Hoje fique mais tranquilo. A ver…

De qualquer forma, em homenagem a essa energia gracinha do momento, a essa coisa pantufa, a essa coisa pé no chão-elemento-madeira, vou deixar a Baby Consuelo dar aquele grito do céu, do ar e do mar. E deixe-me ir, que ainda hoje há o que fazer.

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Macaco subiu no cipó!

por Bressa
é tudo bem simples: em meados dos 80, na terra desolada de Bauru, um bando de adolescentes, que queriam ser pop stars, levavam os dias atrás de bandas mais ou menos obscuras, principalmente as inglesas, que pudessem ajudar a aplacar o tédio mortal daquele lugar. uma história comum de adolescentes também comuns.

a diferença foi, se foi, uma certa dose de acidez que, reunida naquelas cabeças ali, acabava acertando tudo e todos ao redor, inclusive as tais bandas tão cultuadas.

e não foi diferente com o Cocteau Twins. os vocais lindos, recortados e impronunciáveis de Liz Frazer logo acabaram tostados nas piadinhas infames do grupo: de Lorelei surgiu “eu não vim eu não vou” e de Aloysius tiramos “macaco subiu no cipó”, entre outras pérolas iconoclastas divertidas.

apesar das brincadeiras juvenis, acho que todos adoramos a banda até hoje. e ainda é um prazer único relatar, contando vantagem, o prazer de ter visto o show de lançamento do álbum “Heaven or Las Vegas”, no antigo Projeto SP. eu fui e vocês?

e pra quem ainda não veio, vai aí o link do último single de Ms. Frazer. novamente lindo. vamos?

http://elizabethfraser.bandcamp.com/track/moses

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Para começar, o que não é só meu…

Bom, já que é preciso dar corpo a este blog, vou dar um corpo múltiplo. Corpo que junta histórias. Que rouba um pouco de cada um que fez, e vem fazendo, parte do meu corpo vivo. E por isso, eu roubo, logo de cara, a história de três queridos amigos. Um deles, acabou virando meu marido: Marcelo Bressanin. Os outros dois, chegaram por ele: Milton Rizzato Tocchetto e Paulo Sandrini, amados completos.

E a história que abre este blog envolve, ainda, um outro corpo: Cocteau Twins. Para dizer a verdade, uma piada criada a partir de uma música dos caras. Uma música incrível, que eu nunca consegui escutar com outro refrão a não ser: “eu não vim, eu não vou”. E por conta deste refrão, a música ganhou outra forma. Ganhou uma história, que eu não vivi, mas passou a ser minha de um jeito….

Então, para começar com a pegada que faz sentido pra mim, vou chamar os três – se eles se animarem a escrever – , e mais uns outros caros meus – se eles se animarem a escrever – , para dar outros sabores para esta banda que eu acho do caralho!

Aqui Lorelei cujo refrão foi revisitado:

 

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